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É O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA* Janeiro 27, 2009

Posted by cametaforas in CAMETÁ, CULTURA.
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Começa salvar-se o patrimônio cultural cametaense?

 

 

Salomão Larêdo

 

Escritor e Jornalista

Especial para o Magazine

 

Não é referência ao livro quase homônimo do escritor colombiano Nobel de Literatura de 1982 ,  Gabriel Garcia Marques – O amor nos tempos do cólera – e,  sim o amor, a consciência  cultural e o profissionalismo das técnicas do Sistema Integrado de Museus e Memoriais – SIM – que foram salvar , em  Cametá,  a imponente e importante tela   Cólera Morbus” – , feita em 1858, por Constantino Pedro da Mota Chaves, retratando a grande epidemia do final do século XIX  quase dizimando aquela cidade sob o olhar de seu filho cametaense Ângelo Custódio Corrêa,  presidente da Província  do Pará   que também morreu vitimado pelo cólera contraído  em Cametá  - que se deteriorava  em meio as goteiras no prédio onde por muitos anos funcionou o Museu Histórico da cidade.

Cametá, nesse sentido é quase Macondo -  a aldeia do  livro   “ Cem Anos de Solidão”  com que Gabo ganhou o Nobel, em 1982 – , se  não se apressar em  preservar seu enorme patrimônio histórico e cultural, também lingüístico. Cidade que já foi capital de Belém  assiste desaparecer suas primeiras  ruas tragadas pelo rio Tocantins,  e,  se não fosse  a competência da equipe do SIM/Secult , liderada por sua diretora Renata Maués que é expert  em restauração, estaríamos hoje também  sem  esse móvel  memorial de nossa identidade.

Há alguns dias Renata Maués, diretora do SIM,  a diretora do Museu de Arte Sacra de Belém , Zenaide de  Paiva e  a técnica em conservação e restauro Alcione Ribeiro,  às expensas do governo do estado, viajaram até Cametá e durante três dias avaliaram a situação  da tela em questão e  deram conta da tarefa: salvar aquele patrimônio.

No antigo espaço fétido e impróprio que abrigava o museu,as técnicas começaram o processo de higienização da tela reatando ao  chassi que estava se despreendendo. Depois, procederam a retirada  da tela  da moldura encupizada , fazendo o faciamento na lona  para evitar que a policromia se perca.

Tarefa árdua em razão da  ausência de suporte material inexistente em Cametá, porém, ao cabo dos três dias, a tela estava bem acondicionada  e  pronta para ser transportada para  novo espaço destinado a abrigar as peças do que poderá ser novamente o Museu Histórico de Cametá.

Presentemente Renata explica que está procurando estabelecer os termos do convênio entre a Secult e a prefeitura Municipal de Cametá para que seja assinado  pelo titular da Secult, Edílson Moura e pelo prefeito de Cametá Waldoly Valente,  documento  de cooperação técnica  para que , em primeiro lugar e de forma urgente, seja feito o transporte da tela com todo o cuidado e precaução, de Cametá para o laboratório de restauro da Secult, em Belém.O  atual dirigente do MHC, folclorista Manuel Valente, confirmou à Renata Maués que  a tela  foi  finalmente transferida paro espaço do atual museu, o prédio da antiga  Câmara, reformado.

A restauração da tela demandará, calcula  Renata, entre oito a onze  meses  a um  custo está sendo  calculado para  orçamento que   terá a participação do Governo do Estado e  a contrapartida  da Prefeitura de Cametá.

É vontade da diretora do SIM – Sistema Integrado de Museu e Memoriais-, que a tela, após restaurada, fique exposta no Museu do Estado do Pará,  em Belém durante três  meses e depois siga para integrar o acervo pictórico do  Museu Histórico de Cametá que deve passar por uma completa  readaptação e remodelação em sua estrutura física e administrativa com espaço para tratamento das peças, muitas hoje,conforme se ouve falar,  espalhadas  em diversos locais de particulares, na cidade, justamente por absoluta falta de espaço condigno para abrigá-las no antigo prédio do museu.

Levantamento e sistematização  das peças e de todo acervo será  feito e deverá ser publicado catálogo  de tudo   que foi restaurado. Embora haja notícias de que muito material  tenha sido extraviado, os técnicos  têm esperança de  recuperá-los   integrando-os  ao patrimônio cultural  dos cametaenses.

Muito embora ainda vá ser feito o teste de pigmentação, a tela, para a restauradora  Renata Maués,  pintada por Constantino Chaves,  foi feita  a  óleo. Informa também que a história do  artista  pintor  e da tela  já está sendo  levantada.  Calcula que em Janeiro de 2010  a tela deverá ser exposta  em toda a sua beleza, em Belém.

O museu de Cametá durante muitos anos foi dirigido pelo santeiro, escultor, pesquisador e historiador Raymundo Penafort, homem sério que fez todo o possível para manter funcionando, mesmo sem recursos e sem apoio,  o museu. A dedicação e o zelo de Penafort fizeram Cametá ainda ter esse museu. Mas, infelizmente Penafort morreu e o museu – inobstante todo o cuidado das demais direções e funcionários – ficou  em situação  de indigência devido a  total falta de apoio e recursos. O prédio deteriorando e cheio de goteiras, tornava o local insalubre, colocando em permanente risco quem ali trabalhava e as peças  carentes de cuidado.

Felizmente após muita pressão – de quem se preocupa com o estado da cultura cametaense – ,  o poder público destinou espaço mais condizente para abrigar as peças do museu, precisando de  orientação que agora o SIM pretende suprir uma vez que é desejo da Secult, proceder  acertos   para  que  os museus municipais do Pará  façam parte do  Sistema e  recebam orientação técnica  ao seu funcionamento, e, claro, todos, continuarão sendo patrimônio do povo de  seus respectivos municípios.

Confesso ao leitor, particularmente, que, como cametaense da Vila do Carmo, escritor e cidadão do mundo, sofri e me indignei muito com a situação do Museu Histórico de Cametá. Faz-se  necessário mais  responsabilidade e cuidado  com o que resta da cultura   quatrocentona de Cametá , fundada oficialmente a 24 de dezembro de 1635 , mas já existente pelas mãos dos bravos Camutá desde 1612, portanto, antes mesmo da fundação de Belém e sempre carente de recursos, tendo em seu rico patrimônio, tudo para ser uma cidade que possibilite aos seus moradores o viver dignamente como ser humano através do  aproveitamento sócio-econômico de   sua  grandiosa  cultura: o casario antigo, a fala cametauara, as danças, os costumes, tradição, cozinha,  a arquitetura, política, nomes ilustres, a história do Pará feita e ali vivida, tudo pode ser  explorado economicamente  em proveito de todos de uma maneira diferenciada do  que costumeiramente  faz o consumismo neoliberal mecânico, perverso e sem fruição para os verdadeiros atores e sujeitos de sua vida e  do que é seu. O  povo cametaense pode fazer isso sacudindo  a poeira do atraso a que  historicamente  se deixou submeter  por ainda  não ter  assumido  para aproveitar , a seu favor,   sua história, sua identidade,  sua identificação e a sua significativa cultura. 

 

*Cólera Morbus – Nome da epidemia  que assolou o Norte do Brasil, em 1855, destacando-se, Belém e Cametá, pós revolução social do povo paraense, a Cabanagem -  1835 a 1840 – . Para saber mais,dentre outros, consultar: “Cólera, o flagelo da Belém do Grão Pará, de  Jane Felipe Beltrão; Rayol, Domingos Antonio – “ Motins Políticos…”   e  Salles, Vicente,   “ Memorial da Cabanagem”. 

 

O texto acima  saiu  em forma de  matéria  - adaptada e sintetizada para o espaço do jornal –  publicada na capa do caderno MAGAZINE, do jornal  O  LIBERAL , edição de domingo, 04 de janeiro de 2009, com o seguinte título: Patrimônio dos tempos do cólera”.

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