Manifesto/Protesto – UEMA Maio 12, 2009
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QUEBRADO O JIRAU DA LITERATURA DO PARÁ
Com profunda indignação, a União dos Escritores da Amazônia – UEAma-, protesta publicamente contra mais um golpe desfavorável à Literatura Paraense e à cultura amazônica, com a não realização do II Jirau da Literatura Paraense , previsto para acontecer nos dias 28, 29 e 30 de Maio, no hall Ismael Nery, do Centur e inviabilizado em razão do Governo do Estado proceder o corte injustificável, inexplicável e incoerente no orçamento da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves – Centur, que se responsabilizou pela sua execução.
Os escritores paraenses lamentam que o poder público desrespeite e despreze a Literatura do Pará, quando sua função e obrigação é estimular e incentivar a produção literária local -, que luta contra um monte de adversidades e dificuldades de toda ordem, sobretudo de produção das obras, também de espaço ao livro e de acesso à leitura -, garantindo escolas e bibliotecas a todos, sobretudo ao povo pobre que vive distante dos livros e sem acesso aos bens culturais , direito que deveria ser bancado pelo Estado, viabilizando as iniciativas populares da sociedade que gera a cultura e vive sem equipamentos culturais procurando desfazer o enorme preconceito e abandono endógeno e exógeno que, em razão disso, não tem conseguido ultrapassar as fronteiras do Estado, apesar da qualidade de sua produção não apenas literária, mas em todas as frentes artísticas.
O Jirau, idéia dos escritores da UEAma, objetiva valorizar o escritor local e sua produção, sobretudo do autor que, morando no interior, tem menos chance de mostrar o que produz , numa mobilização cultural democrática e desvinculada de qualquer cor político partidária, visando a interconexão entre escritor e público para criar sociedade desenvolvida para o progresso sócio educacional e cultural de nossa gente parauara.
Em respeito aos colegas escritores da capital e do interior que se preparavam para mostrar sua produção literária e ao público que estava em expectativa em participar do importante evento, fazemos este comunicado como forma de protesto civilizada e responsavelmente contra a falta de políticas publicas de apoio e incentivo à cultura local, contando com o apoio e a solidariedade dos colegas produtores culturais das demais vertentes da arte e da sociedade paraense, para mostrar nossa indignação diante do descaso e do desprezo com a cultura aqui produzida, que, ao que parece, virou mesmo, palavrão.
Belém, 01 de maio de 2009 – Dia do Trabalhador da Cultura.
Pela UEAma – União dos Escritores da Amazônia:
Salomão Larêdo, Walcyr Monteiro e João de Castro
O Google encontra quase tudo… Junho 17, 2008
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MAPARÁ, PATRIMÔNIO CULTURAL DE CAMETÁ Maio 27, 2008
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Cametá, “papamapará”. Assim se mexia com o cametaense até a década de 1970. Em 1984, a hidrelétrica de Tucuruí foi inaugurada e a água do rio Tocantins sofreu enormes mutações, como ser estrangulada, com impedimento à navegação à jusante e à montante da barragem e outras mudanças de ordem sócio-ambientais que alteraram o modo de vida do ribeirinho que viu a transformação: água ter cor, sabor e odor. Mudou de cor, o sabor e o cheiro, desagradáveis, muito limo, piolho d’água e o areal que está tornando praia o que antes era água. Um desastre ecológico que tem derrubado o cais da cidade de Cametá até hoje sem conserto.
E o mapará que bamburrava nas águas tocantinas da área de Cametá, sumiu e o pouco que se encontra, concentrou-se no lago de Tucuruí que nunca teve tradição piscosa do tipo mapará (hypophtholuns edenatus) .
Mas, o cametaense continuou convivendo com a fama de ser papamapará ou de que “era papamapará” como passei a usar nos meus livros.
Bem lentamente começam a aparecer as camboas com o mapará cametaense, o pescador vê, com emoção o brilho prateado entre as canoas no bloqueio. Há um aceno de esperança nesse meio de vida do caboclo mais consciente de sua ação no mundo que precisa de equilibrio sustentável nessas manejadas políticas públicas impostas pelo neoliberalismo econômico que só olha o lucro do capital, o homem da Amazônia se ferrando, feio.
Por isso, venho, antes que o mapará desapareça no mercado exportador, antes que algum aventureiro de outras plagas se aposse e aí seja tarde demais, na condição de cametaense, reivindicar seja o mapará reconhecido como patrimônio cultural de Cametá,local tradicional onde ainda se pode saborear tão gostoso prato, um petisco que pode e deve ser servido de todo tipo e jeito,dentre os quais: cosido , frito, moqueado , no lixo ou de barriga cheia, seco, com pirão de açaí, com feijão, no quitim, como café da manhã, no almoço ou no jantar, com farinha d’água ou seca, com pimenta, com limão, no tucupi, o lanzudo se presta até para adornar pizza e pode ser feito no caldo da vinagreira, com maxixe, limão azedo, na tala, assado e mil outros modo.
Você, leitor, sabe porque todo cametaense é inteligente? Porque come cabeça de mapará, dizia o escritor conterrâneo Victor Tamer e corroborado pelo poeta Alberto Mocbel, mestro Cupijó pelos famosos artistas: Natal Silva, Kim Marques, Ivan Cardoso, médicos Luis Malcher, Herundino Moreira e pelos lingüistas Danuzio Pompeu e Doriedson Rodrigues e tantos outros filhos de Cametá.
Quer comer mapará com açaí, farinha e aviú ? Vá à Cametá à festa de são João,no próximo mês de junho e se empanturre de tudo o quanto tem de gostoso na cozinha cametauara e ajude a tornar o mapará patrimônio cultural de Cametá, com pitiú e tudo o mais.
Salomão Larêdo, advogado, escritor e jornalista
(Publicado no Jornal O Liberal , edição do dia 26 de maio de 2008 – Belém – Pará )
Faroeste Caboclo – Incrível, mas ainda acontece por aqui… Maio 2, 2008
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Margem esquerda do Igarapé do Francez, município de Santa Cruz do Arari
– o terror foi desencadeado no início de março de 2008, quando o pistoleiro Piauí e outros capangas invadiram e atearam fogo em diversas casas de colonos na localidade de Francez, expulsando as famílias e saqueando suas residências. Segundo o relato do presidente da Associação dos Pequenos Produtores Rurais da Comunidade de Francez, José Almir Alves da Costa, o ato de pistolagem se deu a mando do proprietário da Fazenda Santo Elias, sr. Guilherme Benchimol que, na manhã do dia 8 de abril, “ali chegou em uma voadeira juntamente com o pistoleiro Piauí e outros desconhecidos, com armas de fogo, que novamente deram o ultimato aos colonos para o abandono de suas residências em dez dias, pois se não saírem irão sofrer graves conseqüências”, sob a alegação de que as terras pertenceriam ao fazendeiro. Desde então, cerca de setenta famílias deixaram suas pequenas posses, escondendo-se em casas de parentes, como bandidos fossem, ou mesmo deixando a localidade com medo de sofrer as “graves conseqüências”, como ameaçou o pistoleiro. Piauí, também conhecido como José Amoedo, é bandido conhecido na região de Cachoeira e Santa Cruz, tendo cerca de vinte denúncias por homicídio, sempre de forma violenta, a serviço de fazendeiros inescrupulosos.
Na seqüência dos fatos, na manhã do dia nove, a professora da pequena escola da localidade foi procurada por algumas famílias que tiveram as casas queimadas e saqueadas, e cedeu a escola para que guardassem o que restou de seus pertences. Sem ter a quem recorrer, pois o presidente da Associação não estava na região, os moradores conseguiram uma rabeta e pediram à professora que acompanhasse um grupo para ir à delegacia de Santa Cruz do Arari, onde foi registrado o ato criminoso dos capangas do fazendeiro Guilherme Benchimol. Aconselhado a procurar a Juíza e a Delegacia em Cachoeira do Arari, o grupo seguiu para esta cidade vizinha onde o presidente da Associação prestou Termo de Declaração no dia 25 de abril, permanecendo o grupo até o dia 29 em Cachoeira, sem recursos e ameaçados de morte caso voltem à comunidade, conforme telefonema recebido na própria Delegacia de Cachoeira citando especificamente a professora – consta que o pistoleiro aguarda o grupo no caminho de volta. No entanto, na madrugada do dia 30, o grupo de moradores voltou de motor para o Francez, mesmo correndo perigo de vida, enquanto a professora permaneceu em Cachoeira acompanhando o andamento das investigações.
O Igarapé do Francez divide os municípios de Anajás e Santa Cruz do Arari, na região dos campos da Ilha do Marajó. A comunidade fica em sua margem esquerda e a escola na margem direita (município de Anajás), atendendo sessenta e três alunos dos dois municípios. As terras em litígio localizam-se no município de Santa Cruz do Arari e compreendem uma área de pouco menos de seis mil hectares, demarcadas em 22 de abril de 2004 pelo Instituto de Terras do Pará – ITERPA como de propriedade da Associação dos Pequenos Produtores Rurais da Comunidade Francez, segundo o protocolo no. 2002/308531.
Em outro documento – certidão emitida em 27 de agosto de 2003 – a Gerência Regional de Patrimônio da União no Pará e Amapá – GRPU/PA-AP certifica a tramitação do processo de no. 05010.001401/2003-32 referente ao pedido da Associação de cessão de uso da área caracterizada como terreno de marinha e de propriedade da União, destinada à implantação de projeto de Manejo Florestal Sustentado de Açaizeiro. No decorrer desse processo, ao final de 2007 foram emitidos pela GRPU/PA-AP os primeiros Termos de Autorização de Uso “para o desbaste de açaizais, colheita de frutos ou manejo de outras espécies extrativistas”, como consta no Termo de no. 5503/2007, emitido em 26 de novembro a favor de Benedito Cordeiro da Silva, um dos moradores que teve parte de sua residência queimada pelos bandidos.
Hoje, segundo o presidente da Associação, José Almir, vivem no Francez mais de cem famílias, das quais cerca de setenta estão escondidas com medo da ação dos pistoleiros de Benchimol. Acostumados na antiga e perversa tradição do coronelismo e na prática da “meia”, vários fazendeiros do Marajó lucram com a exploração do trabalho escravo das famílias que residem em “suas terras” há gerações, conforme denunciou Benedito Cordeiro. Outro caso recente que bem ilustra essa prática criminosa ocorreu ao final de 2007 quando Teodoro Lalor, colono da localidade de Gurupá no município de Cachoeira do Arari, sofreu perseguição e foi preso por denúncia do fazendeiro Liberato de Castro.
Lalor ocupa uma área de manejo de açaí pretendida por Liberato, mas ganhou na Justiça a autorização de uso e enfureceu o fazendeiro que explora outras áreas na região de Cachoeira e Ponta de Pedras com a prática da “meia” – o colono colhe o açaí e metade fica com o fazendeiro. Em janeiro de 2008, doente e internado no Hospital de Cachoeira, Lalor recebeu a solidariedade de colonos de toda a região que realizaram duas passeatas pelas ruas de Cachoeira com apoio da Federação dos Trabalhadores na Agricultura – FETAGRI/PA, e teve a prisão revogada por ordem da Juíza da Comarca.
No entanto, enquanto Piauí e seus comparsas, a mando de Guilherme Benchimol, aguardam o retorno dos colonos do Francez na curva do rio acostumados nos desmandos do coronelismo e na certeza da impunidade que o isolamento do Marajó sempre facilitou, as notícias agora viajam na velocidade da internet, importante arma na luta pelos direitos humanos e pela terra a quem nela trabalha.
Cachoeira do Arari, abril de 2008
Eleições 2008 – Legislação Abril 4, 2008
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Lista com as Normas e Resoluções para as Eleições Municipais 2008 (Arquivos em PDF)
Res 22.712 – Atos Preparatórios, Recepção de Votos, Garantias Eleitorais, Totalização dos Resultados e Justificativa Eleitoral
Res 22.715 – Arrecadação e Aplicação de Recursos por Candidatos e Comitês Financeiros e Prestação de Contas nas Eleições Municipais de 2008
Res 22.716 – Formulários a serem utilizados nas Eleições Municipais de 2008
Res 22.717 – Escolha e Registro de Candidatos nas Eleições Municipais de 2008
Res 22.718 – Propaganda Eleitoral e Condutas Vedadas aos Agentes
Res 22.719 – Cédulas Oficiais de Uso Contingente para as Eleições
Res 22623 – Pesquisas_Eleitorais
Res 22.624 – Representações, Reclamações e Pedidos de Resposta
Res 4324 – Competencias Juizos EleitoraisEleicoes 2008
Locais de Votação em Belém
Locais de Votação no Pará
Links no site do TSE
Jirau da Literatura Paraense Março 31, 2008
Posted by cametaforas in CULTURA, LITERATURA.add a comment
Será lançado hoje, às 19h, no Cine Líbero Luxardo (térreo do CENTUR) o I Jirau da Literatura Paraense. Um precioso e democrático espaço de divulgação, comercialização e intercâmbio da literatura paraense.
O evento promovido com parcerias entre a Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves – FCPTN, Secretaria de Estado de Cultura – SECULT, Secretaria de Educação – SEDUC e União dos Escritores e Artistas da Amazônia – UEAMA, viabilizará o encontro dos autores, suas obras e produção de todo tipo e gênero com a comunidade em todos os segmentos sociais.
O lançamento contará com apresentação Lítero-musical dos artistas Renato Torres e Dionelpho Júnior (entrada franca).
Mais informações no site da Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves – FCPTN
Parabéns aos responsáveis pelo evento. Vida longa ao Jirau!
A asa e a serpente (primeiro livro de Andara) Março 24, 2008
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Vicente Cecim
Minha mão esquerda está cuidando da direita como se fossem dois irmãos
E há aves caindo do céu e se transformando em terra. A mão direita que ainda mata
Bem no começo da viagem, é preciso dizer o que contém este primeiro livro. Ele é o relato da aparição de uma assombração militar em Santa Maria do Grão.
Esta viagem a Andara
E aonde mais?
Na vida.
Andara é perto e longe. Andara está dentro de ti. E fora. E dentro de mim.
Diz a voz
Esta voz
E agora, se vocês já estão prontos para as febres do sangue sem esperança de um prisioneiro da cabeça escura e das idades do homem
Já?
Mais tarde teremos um dia na vida do homem sem memória.
E depois, arte mecânica e revolta.
Isso anuncia dois finais. Falsos. Para escolher
E bem no finzinho, cairá a chuva.
Mas essa, irmãozinhos, é uma outra, e rara, chuva
Eles ainda entregarão outras crianças às águas, arrastados pelo desejo de tocar o fundo
Por que estas palavras, e não outras, para contar pela primeira vez a vocês a história?
Agora passo a narrar, sem fôlego,
às vezes alegre, às vezes triste,
todo o conteúdo de um dos meus sonos.
Um dos mais reais
Tudo se dá aqui, entre luzes e sombras.
E não lá, onde respira o vapor dos venenos cotidianos o leitor impossível de tocar de outro modo, à traição. Com estas mãos. As mesmas que revelarão uma última porção de terra fértil na palma,
depois que o último homem houver passado,
distraído,
olhando os pés que vão porque querem ir como os olhos vão porque querem ir neste texto que fala de uma tarde dada ao acaso.
O morto voltou numa tarde. Então começo por essa tarde.
Também voltam os guinchos e os animais que fazem uma careta cômica para a origem do bem e do mal.
Eu falo do tecido fino onde a vida dá sentido à vida.
E este é o relato.
Nele, vocês verão apenas dois focinhos humanos.
O meu e o do sargento Nazareno.
Os outros estarão velados pela noite de uma fábula detestável.
Mas ao mesmo tempo é uma atmosfera limite o que me leva esconder as identidade das suas carnes e a intenção de dar a vocês um jogo e um ingrediente do susto infantil
A memória. Um retorno sobre os mesmos passos para onde quer que se vá.
Mas não neste caso, talvez
Será uma fala da outra voz a invenção do Nazareno e desta história escura, estremecida de relâmpagos em plena estação do medo
Meti a mão no passado,
mas é um passado que guardo na memória sem ter vivido um só momento dele, eu não estive lá
para extrair um fantasma assim sem vida, um tanto estragado e mutilado depois que o matei pela primeira vez. E sujo de terra depois que eu o enterrei com a ajuda de um cortejo de miseráveis e infelizes criados pela imaginação, ou sonhados. Ou é sem dúvida a memória. Ou dos quais apenas me lembro desde que comecei a falar de improviso, sem nenhuma realidade sob os pés.
E no entanto eu não minto
Tenho ainda um olho vivo e este outro olho, morto, enterrado na cara. Mas ele é necessário, como verão. Sem ele não teríamos um morto de volta à vida.
E é pelo segundo olho, o que morreu, que posso jurar
Embora seja o primeiro que veja que estamos prontos para dar início.
- Tu és pó e do pó retornarás.
Esta é a operação revoltada que alterará o passado e a tradição dos circos ambulantes, pela substituição de uma única letra numa voz que fala de fatalidade
E assim caímos, ou volta à tona o texto, no momento exato em que o Nazareno está regressando para começar a sua segunda vida, na qual ele recusará todo o horror e as cruzes de vidro que o dia de ontem alimentou no seu ventre com rações de violência. Não teremos mais seus dentes à mostra. Eu falo de um homem que dirá adeus às cidades e penetrará num rio com vegetais vermelhos, em busca da felicidade, com uma provisão de mistérios em cada lábio.
Eu e os infelizes havíamos enterrado o seu corpo, depois que eu o matei, num caixão capaz de resistir ao ódio de um morto à traição.
Mas a sua volta era a evidência, em pleno ar daquela tarde, de que nem a madeira mais dura pode resistir à outra intenção com que eu conto esta história.
O Nazareno voltava.
E carregava seu caixão na cabeça. Ia entrando, com passos exaustos, pela rua que o levaria à sombra dos monumentos irônicos que espiam a vida na praça de Santa Maria do Grão enquanto olhos ocultos o viam chegar. E não respire, não viva. Ninguém quis acreditar no que viu
Ele estava acabado como um morto que segue em busca de uma estrela, naquele fim de tarde de resto igual aos outros, lento, parando para se deixar engolir pela noite.
Quando parou, espanto e medo. Estava onde eu temia. Vi que era o mesmo lugar onde eu havia espetado o seu corpo com a faca,
uma emoção do rancor. Uma sombra de homem com uma faca por trás de um homem adormecido.
Digo tudo o que vi no meu sono. Sem pudor.
Ele sentou. E era o chão onde eu fiz correr um mar vermelho, o sangue apagado pela memória das testemunhas e, também, pelos pés do acaso fazendo a sua passagem por ali
Pôs o caixão do seu lado. Apoiou a costa na parede de uma casa. A costa onde haveria uma cicatriz azul, ao redor da ferida,
ou nada. Tudo podia ter sido apagado pela morte. E sua cabeça caiu da altura de um abismo para a paz do seu peito, um jardim sem piedade.
Afundando assim, ele dormiu. E esqueceu que havia voltado.
E veio a noite com um vento negro, que deu fim em alguns homens, espetáculo rodopiante de desesperos e gritos.
As mulheres e as crianças, porém, ousaram sair para as ruas e não foram molestadas por estranhos. É assim a vida.
Quem inventou esse vento?
O medo, que voltava, como antes, junto com o morto.
Ou ele é apenas o efeito artificioso com que quero instalar, assim logo de início, uma atmosfera ainda mais suspeita para fortalecer este meu relato suspeito e destroçar todo o poder infantil que vocês têm de aplacar as tempestades.
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